FOTO POEMA

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quinta-feira, 9 de maio de 2013

Por Mário de Andrade - 1893/1945

"Contei meus anos e descobri
 que terei menos tempo para viver
 daqui para frente do que já vivi até agora.
 Tenho muito mais passado do que futuro.
 Sinto-me como aquele menino
 que recebeu uma bacia de cerejas.
 As primeiras ele chupou displicente,
 mas percebendo que faltam poucas,
 rói o caroço.
 Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
 Não quero estar em reuniões
 onde desfilam egos inflamados.
 Inquieto-me com invejosos
 tentando destruir quem eles admiram,
 cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
 Já não tenho tempo
 para conversas intermináveis,
 para discutir assuntos inúteis
 sobre vidas alheias
 que nem fazem parte da minha.
 Já não tenho tempo para administrar melindres
 de pessoas que,
 apesar da idade cronológica,
 são imaturas.
 Detesto fazer acareação de desafetos
 que brigaram pelo majestoso cargo
 de secretário-geral do coral.
 As pessoas não debatem conteúdos,
 apenas rótulos.
 Meu tempo tornou-se escasso
 para debater rótulos, quero a essência,
 minha alma tem pressa...
 Sem muitas cerejas na bacia,
 quero viver ao lado de gente humana;
 que sabe rir de seus tropeços,
 não se encanta com triunfos,
 não se considera eleita antes da hora,
 não foge de sua mortalidade.
 Quero caminhar perto de coisas
 e pessoas de verdade.
 O essencial faz a vida valer a pena.
 E para mim, basta o essencial!"


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